sábado, 10 de setembro de 2016

Legião dos Super-heróis contra o Infinito: co(s)mo estrelas nos olhos de um contemplante!


Gibi: Super-Duplas (A Maior), nº. 20 – março de 1980, EBAL
Roteiro: Paul Levitz; Arte: James Sherman e Bob Wiacek

Eis uma das fases mais interessantes dos gibis de super-heróis, aqui editadas, durante a publicação pela finada editora EBAL do Rio de Janeiro.
Já na fase do formatinho, eu adquiria vez ou outra algum dos seus lançamentos. Porém, este que enfoco eu só o comprei anos depois num sebo, visto que fui tomar contato antes, quando viajava de férias para a residência de parentes em Ituiutaba/MG (cidade onde nasci). Lá, havia um “quartinho” que era exclusivo às publicações (espécie de mini-gibiteca) e que era tomado por gibis de todas as áreas (heróis, humor, históricos etc). Pois naquele período, na minha adolescência, ao folhear um deles (vide capa na fig. 1), eu me tornara maravilhado. 
Fig. 1
Foi assim com a segunda história da revista, a começar pelas duas páginas de abertura (fig. 2): arte que expunha o futuro, em que Super-Boy e seus amigos da Legião de Super-Heróis apareciam já combatendo vilões (no caso, vilãs) que eram “assaltantes sklarianas" numa arte das que, com meus 13, ou 14, ou 15 anos, adorava ver, sorver, e fruir, para depois tentar desenhar (de memória o mais próximo possível dos desenhos cujos estilos me agradavam, recriando-os de maneira pessoal)! A arte de James Sherman não era das melhores, mas também estava acima da média, e tinha um estilo e uma vivacidade nos movimentos e ângulos que me cativaram (lembrando que a arte-final de Bob Wiacek propulsionava os desenhos do artista, usando retículas e um preto e branco vigoroso e marcante, com as cores tradicionais que as revistas da EBAL utilizavam num papel especial mais grosso que o normal das outras editoras). A sobriedade da história (seriedade), mais a arte me davam alento para continuar meus treinamentos de desenhos em quadrinhos (eu assim procedia depois de ver alguma HQ cujo estilo me atraía: fechava depois a revista e tentava de memória fazer meus desenhos no estilo do desenhista que havia me agradado, conforme explanei anteriormente).


Mas na verdade, as HQs da Legião se passam um milênio além desse nosso tempo (tais como as de Star Trek), em que planetas com seres extraterrestres de toda sorte se reúnem e digladiam entre elas, tendo em comum a Legião de super seres, formada com jovens detentores de poderes além dos normais, de todas as raças e espécies que habitam o cosmo, impulsionadas pela lenda do "passado" que lhas deu avidez pela ética, pela paz e pelo amor: a lenda do Superboy (ou Superman depois).
Fig. 2
A premissa era boa, mas a Legião teve muitos altos e baixos em sua qualidade devido aos autores que nela passaram, e era publicada desde o final da década de 1960 nos EUA e também no Brasil, inicialmente em formatão e preto e branco. Essa fase de formatinho veio depois, colorida e já numa melhor roupagem de roteiros e desenhos (algumas HQs com arte do Dave Cockrum, que depois transpôs aos novos X-Men muito dos conceitos que havia aplicado nas HQs da Legião de Super-Heróis).
Mas nessa história em quadrinhos em especial, que na verdade continuava de uma edição anterior, trazendo neste número um novo plot que se fecharia na edição da Revista "Superduplas" subsequente, aparecia um inimigo poderoso: "o Homem-Infinito" (fig. 3) que de humano conseguiu viajar em todos os tempos tornando-se cosmicamente poderoso e gigante (parecendo indestrutível, com a pretensão tradicional dos vilões de ganhar/consumir o Cosmo - um pouco de Galactus nele, talvez).
Fig. 3
De novo, não foi o roteiro que me impressionou, mas os desenhos e as cores: pegar a revista, abri-la e logo de cara ver uma cena de ação bem desenhada com personagens femininas lutando com os super-heróis numa espécie de carro futurista: reparem nas cores-vinho na roupagem das vilãs - uma beleza estética no colorido combinando com as retículas cinzas dos céus (fig. 4).
Fig. 4
Ademais, apesar do roteiro ser padrão, a psicologia dos personagens tinha muito do que viria a ter nos X-Men: eles se relacionavam, casavam, brigavam e cada herói vinha dum rincão distinto do espaço cósmico perfilando uma personalidade única, como a Moça dos Sonhos (que vaticinava ao sonhar), ou o Rapaz das Estrelas (cujo uniforme era simplesmente um espelho do espaço sideral cheio de estrelas, além de Rapaz-Camaleão cujo dom era se transformar em qualquer outra pessoa, ou Ultra-Boy, em que seus poderes só podiam ser usados um de cada vez etc.
Havia dezenas de heróis, o que permitia ao roteirista trabalhá-los como quisesse e nem sempre utilizando todos, visto que podiam entrar em missões espaciais distintas (claro que não foram tão bem aproveitados naquela época, como poderiam. Somente anos depois Paul levitz e Keith Giffen trouxeram conceitos renovados mais contundentes à Legião).
Fig. 5: vide o desenho retratando as imagens dos personagens espelhadas na porta de vidro atrás da personagem, e também no elmo de Fogo-Fátuo no último quadrinho.

Fig. 6: ângulos distintos nos quadrinhos!
Assim, essa homenagem é mais para os desenhos dessa HQ, as mudanças de ângulos das cenas nos quadrinhos (figs. 5 e 6), as cores como disse, e a maravilha que essas imagens (ondas gráficas visuais) adentraram em meu ser da primeira vez que bati meus olhos em suas páginas...é inexplicável, tanto quanto o que sentimos ao ouvirmos músicas que nos tocam (e no caso, à época, eu começava a ouvir rock mais pesado e/ou progressivo, portanto, tais imagens se coadunavam com as ondas sonoras de Iron Maiden, Uriah Heep, Pink Floyd ou Dio), trazendo-me imaginações incríveis, vontade imanente e inexorável de desenhar, e recriações sorvendo os desenhos, as sequências enquanto ouvia tais sons!
Bons tempos que ribombaram em meu ser  e me tornaram quem sou hoje: com ideais, com ética e com vontade de ter, reiterar e reincidir a estética gráfico/sonoro/cósmica em tudo o que imagino e busco executar!


Gazy Andraus, São Vicente, entre abril e setembro de 2016.




[1]Professor da da FIG-UNIMESP - Centro Universitário Metropolitano de São Paulo; Doutor em Ciências da Comunicação pela USP; mestre em Artes pela UNESP, pesquisador do Observatório de HQ da USP; INTERESPE – Interdisciplinaridade e Espiritualidade na Educação; Interculturalidade e Poéticas de Fronteira e autor independente de HQ fantástico-filosófica.  yzagandraus@gmail.comhttp://tesegazy.blogspot.com/

sábado, 2 de maio de 2015

Os momentos de respiros nas HQs de Super-Heróis das décadas de 1960 e 70: o caso Kent!

Gibi: Super-Homem, nº. 2 – ago. 1984, Abril


Roteiro: Len Wein; Arte: Neal Adams;


Figs. 1 e 2

Prof. Dr. Gazy Andraus[1]

Retomando minhas resenhas acerca das HQs de Super-Heróis clássicas publicadas nas décadas passadas que promoveram a mim intensa atividade na leitura e realização de desenhos, lembro-me que vez ou outra, saíam histórias em que não eram do padrão de roteiros com vilões, trazendo um diferencial das que existem hoje em dia, sempre massacrantes nas ações e nunca dando fôlego ao leitor, e para que adquira todas as revistas com roteiros continuados em outras revistas etc. 










Figs. 3 e 4

Uma dessas histórias interessantes, curtas e que brincam com o personagem em sua identidade secreta, sem ter que expor sua fantasia de herói, foi com Super-Homem na série “A vida particular de Clark Kent”. Tal HQ, decerto parte de uma série cujas outras histórias não me lembro se vi, saiu pelo menos duas vezes no Brasil (figs 1 e 2): a primeira em preto e branco pela EBAL (1973) e na segunda, colorida e em formatinho pela Abril (1984), que falhou em não dar os créditos (mas que haviam sido dados na EBAL). O roteiro era de Len Wein e a arte do magistral Neal Adams. Há um jogo de ângulos distintos e perspectivas variadas no cenário, que Adams costumava usar (figs. 3 e 4). Mas nesse caso em específico, usou tais recursos mais ainda, devido ao que pedia a própria história, enriquecendo-a cinematograficamente. Na HQ, Clark Kent é interpelado por sua vizinha de apartamento, que lhe pede auxílio por alguns minutos, a cuidar de sua filhinha que aparenta ter quase uns 2 anos, enquanto ela precisava sair. Sem ter tempo de negar o auxílio, apesar de estar preocupado em realizar um trabalho jornalístico, Clark é obrigado a aceitar a tarefa. Dentro do apartamento da amiga, enquanto usa o telefone para avisar que iria se atrasar para uma entrevista marcada que ele faria, percebe que a criança se esvaiu da poltrona, sumindo de seus cuidados. A seguir, nas 5 páginas restantes (a HQ tem apenas 7 páginas), com o jogo de câmeras que Adams desenha (câmera alta, baixa, plano de detalhe e close dentre outros, como se vê nas fig.s 5 e 6), e com o roteiro enxuto de Wein, o super-homem humanizado passa a averiguar os cômodos do apartamento, saindo pelos corredores do andar e até visitando outra moradora ao perceber um choro vindo do apto dela...mas descobre ser outra a criança lá habitando (figs. 7 e 8). 
Figs 5 e 6
Figs 7 e 8
No último quadrinho da penúltima página, retorna ao apartamento da desaparecida e a encontra quietinha na mesma poltrona de onde sumira ao princípio, como se nunca houvesse desvanecido.  Para arrematar e descobrir como ela havia se evadido e voltado sem que ele percebesse ou soubesse onde se escondera, Kent finge ir ao telefone novamente e como um detetive, de soslaio, fica a verificar os passos da menina, descobrindo, por fim, que ela saíra engatinhando pela portinhola inferior da porta, usada nos EUA para quem possui animais de estimação em casa (fig. 9).   
Fig. 9
Ao final, há um pouco de humor: ao se despedir da vizinha já de volta e agradecida pelo cuidado de Kent com sua filhinha, e após tal trabalho que parecia leve mas que lhe exigiu perspicácia, o Super-Homem em potencial, reflete como um simples humano aliviado, dizendo a ela: “Não foi nada! Ela não deu trabalho nenhum!” Enquanto pensa: “Só quase me matou de susto” (na versão traduzida da Abril, já que na da EBAL tal pensamento não aparece, perdendo muito desse humor singelo – restando saber se no original havia tal balão: ao que penso que sim, pois denota que os autores da HQ quiseram mostrar que por mais super que um ser possa transparecer, há situações cotidianas mas que surpreenderiam até o mais poderoso dos homens, no caso, o Super-Homem). A HQ é simples, com poucas páginas, mas um alento, pois em meio a aventuras fantásticas, epopéias galácticas, guerras espaciais etc, há uma afinidade do que ocorre habitualmente nas HQs desse gênero com as situações cotidianas, tornando-as quase tão estressantes como seria uma luta contra um vilão superpoderoso qualquer. Não sei se atualmente tais temas sumiram de vez nos quadrinhos de heróis, mas seria interessante as novas gerações saberem que existiram...e que eram bem feitas e interessantes, intercalando vez ou outra com as epopéias, e usando conceitos atinentes às qualidades dos heróis (a astúcia de um detetive como Batman, a inteligência arguta de um super-homem etc, sem necessitar usar força bruta e sem um vilão sempre a molestar alguém). Simplesmente uma criança, com sua pureza e inteligência brincando com um adulto! Na DC Comics eu lia mais HQs desse tipo, do que nas da Marvel, mas fica  aqui o desafio aos leitores: se havia HQs assim na editora concorrente e/ou se ainda aparecem histórias como essas nas páginas das "Crises" e batalhas homéricas sem fim (sei que Alan Moore vez ou outra prestava tais homenagens, inclusive a Will Eisner, compondo roteiros atuais com situações ingênuas como as antigas)! Então, espero que haja! Ainda mais com desenhos tão bons como esses de Adams. Fica aqui minha homenagem a essa época e a algumas dessas histórias deliciosas de se ler!

Gazy Andraus, São Vicente, 02 de abril de 2015.

[1] Coordenador e prof. do Curso de Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior e criador da disciplina de HQ e Zine no curso de Tecnólogo em Design Gráfico da FIG-UNIMESP - Centro Universitário Metropolitano de São Paulo, Doutor em Ciências da Comunicação pela USP, mestre em Artes pela UNESP, pesquisador do Observatório de HQ da USP e autor independente de HQ fantástico-filosófica.  gazyandraus@gmail.com ;  http://tesegazy.blogspot.com/http://classichqs.blogspot.com.br/                                         

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Uma ode antiga ao Natal Atual

Gibi: Super-Heróis Marvel, nº. 7 – jan. 1980, RGE

O Coisa e Motoqueiro Fantasma juntos

Capa  
Roteiro: Steve gerber; Arte: Sal Buscema; Arte-Final: Mike Espósito
“Noite de Paz, noite de morte”

por Gazy Andraus


Fig. 1 (fig. 1 a 6: fonte: arquivo pessoal do autor)
Retomando meu blog de HQ clássicas de Super-Heróis, resolvi não escolher uma das melhores histórias em quadrinhos para mim, porém uma com aspectos suficientes que ajudaram a moldar e marcar minha adolescência e que me cativa pela memória devido à época que adquiri a revista logo após o natal em plenas férias escolares: aliado a isso, as imagens desenhadas na segunda HQ da revista Super-Heróis Marvel (fig. 1) com os céus escuros e estrelados cujo enredo trazia em pauta a questão natalina da comemoração do (suposto) nascimento de Jesus Cristo proemiando aquela sensação do espírito natalino que na infância e na adolescência eu possuía (influenciado pela sociedade e família e que hoje só me restaram mesmo tais lembranças, já que com a maturidade percebi o engodo que se tornaram tais festas “natalinas” consumíveis).
Pois bem, ao adquirir a revista na banca, com meus 13 anos, tendo a primeira das duas HQs como protagonistas o Homem-Aranha e Tocha Humana juntos contra Morbius (na arte de Ross Andru, cujo estilo em perspectivde desenhar corpos humanos eu não admirava) e a segunda HQ sob o título Noite de Paz e Noite de Morte com o Coisa e Motoqueiro Fantasma, em que na página de abertura da história apareciam os quadrinhos com o céu estrelado noturno, fiquei contente e motivado, pois os desenhos, ainda que de Sal Buscema (cuja arte era mediana, mas de estilo preferível a de Andru no quesito anatomia) traziam nos quadrinhos um enredo visual instigante. Aquela coleção Super-Heróis Marvel da RGE Editora perfilava em cada edição, duas revistas norte-americanas da Marvel traduzidas, que eram respectivamente Marvel Team-UP (com o protagonista Homem-Aranha sempre com outro super-herói adjunto) e Marvel Two in One (sempre com o Coisa auxiliado por algum outro super-ser), e desconheço se esses títulos norte-americanos ainda existam (suponho que não mais, dadas as mudanças que aconteceram no âmbito das personalidades dos heróis e lides editoriais que causaram tais modificações). 
Fig. 4
O roteiro de Noite de Paz e Noite de Morte, apesar de não ser tão original chega a ser um tanto criativo. Nele, abre-se a HQ com o Motoqueiro Fantasma em uma de suas incursões bucólicas em busca de um caminho renovado buscando se adaptar à maldição noturna de sempre transformar-se numa caveira flamejante. Assim, surge atravessando com sua moto uma das áreas desérticas e indígenas do oeste norte-americano, quando espantosamente quase atropela uma comitiva de três homens montados em camelos (fig. 2). Instigado com o incidente, percebe depois que há uma cidade 
Figs 2, 3 e 4a
ao longe e junta as informações que parecem reproduzir um momento bíblico com uma peculiaridade: as pessoas pareciam hipnotizadas e de feições indígenas (fig. 3). O roteiro faz um corte para a cidade que abriga a sede dos 4 Fantásticos, que está prestes a comemorar o natal daquele ano (fig. 4), enquanto que Reed Richards, o cientista herói de borracha detecta uma estranha anomalia na região, sem saber que é onde se passa o fato com o Motoqueiro Fantasma (fig. 4a). Ben Grimm, o Coisa, se oferece para ir ao lugar de Reed, e assim se dá o encontro do Motoqueiro com o Coisa que se deparam com um inimigo do quarteto antigo dado como morto numa aventura anterior, o Herege (cujo bigode  nessa aventura surreal lembra o do pintor Salvador Dali, talvez apenas uma coincidência visual)Na aventura fica claro que o intuito do vilão é típico da visão estereotipada simplória de antes: a da megalomania de um doente mental com poderes místicos que ganhou, no caso, com a convivência com os espíritos indígenas dos Cheemuzwa, que o avisaram a não desejar o poder absoluto. Mas como todo vilão, traiu a tribo quando retornou, matando-os (antes em outra aventura que é explicada resumidamente) e insuflando a eles novas substâncias que os fizeram reviver como escravos (nessa aventura de agora), encenando o nascimento de Cristo, através de uma criança criada pelos poderes do próprio Herege. Tudo refeito e planejado pelo vilão, que se porta como um Deus que vai enlouquecendo aos poucos: ou seja, não parece haver um objetivo de lucro ou destruição planetária, mas sim de escravismo aos indígenas redivivos que se submetem a sua loucura apoteótica de um falso messias (fig. 5). Tal plano desmorona com a presença e ação dos dois heróis que libertam os indígenas da falsa ilusão, enquanto o ensandecido vilão, tal qual Nero, põe fogo em toda cidadela por ele recriada a partir de uma reserva indígena, até ser contido pelo herói de pedra, o Coisa.  Assim, os indígenas ressuscitados retornam a seu mundo pós-morte, à exceção do menino que fazia as vezes de Jesus no berço, e que é resgatado por outro índio liberto que lá estava hipnotizado e não havia morrido, Wiatt Wingfoot (amigo dos 4 Fantásticos) e uma indígena que se prestam a tomar conta do garoto (fig. 6). A história é singela e ao mesmo tempo tem um potencial de realismo fantástico (ou surreal),  mas criativa por isso mesmo, e a arte de Buscema é boa nesta fase (à exceção do letramento da tradução brasileira adaptada pela RGE, que é muito grande para o formatinho da revista, prejudicando bastante a visualização dos desenhos nos quadrinhos).
Fig. 5
Fig. 6

Mas meu intento em retornar a meu blog com mais histórias “clássicas” foi me lembrar que o visual dessa HQ, mais o tema natalino, coadunado à minha fase adolescente de férias visitado por parentes e primos, e lembrando-me de quando comprei a revista e que até hoje costumo rever a arte dessa HQ (muito também porque renego as artes atuais da maioria dos desenhistas de super-heróis contemporâneos, pois o fazem  com desenhos sem interação real com os roteiristas norte-americanos, e a meu ver, com desenhos extremamente bem feitos, mas sem alma e sem estilo próprio muitas vezes, aparentando falsamente tê-lo. Sem mencionar as mudanças das personalidades dos heróis da atualidade: o Motoqueiro Fantasma nem de longe parece ser esse que aqui é mostrado nessa HQ, cujas histórias versavam por vários temas, até mesmo de ecologia, como noutra aventura do personagem que saiu num gibi dos Heróis da TV em que ele se depara com um homem vingativo que matava golfinhos).
Essas premissas e lembranças mantiveram-me contente e na memória de que tal HQ como a demonstrada aqui, me enterneceu visualmente à época, devido ao fato dos desenhos mostrarem um céu estrelado que se coadunava com o deserto e a figura solitário-filosófica do herói, e seu encontro com um cenário instigante, e um roteiro surreal, apesar de simplório. Outro fator foi o tema natalino e a sensação daquele momento bíblico revivido pelos personagens que me remetiam ao sentimento acalentador e fraterno que eu possuía (sentimentos esses que não vejo mais nesse período obscuro e falsamente alardeado como natalino, mas comercialmente amplificado ao extremo). E assim compartilho um pouco do que senti à época, com uma porção de arte que me fez vibrar e conduziu minha mente nos processos criativos a partir daquelas leituras, sejam pelo roteiro, sejam pela arte, não tão boas assim, no caso, mas suficientes e esteticamente belas para me trazerem sempre à memória de um período em que eu era sempre reavivado com tais momentos de alegria ao adquirir um gibi como aquele, ainda mais se coadunado a uma época festiva e de certa maneira lúdica como a natalina de minha juventude, e partilhá-la a quem o queira, na atualidade, aqui em meu singelo e rememorativo blog.
De toda maneira, espero que entendam, apreciem o contexto da HQ (e àqueles que se sentirem motivados, digitem no Google “Marvel Two-in-One 008 (Ghost Rider).cbz” para baixar a HQ original via torrentz para ser lida no computador – baixem também um programa chamado CBR para conseguirem abrir e ler a história). Vide aqui a página de abertura original e comparem como no Brasil diminuem o texto para caber no então formatinho da revista (fig. 7).
Fig. 7: fonte Marvel Two-in-One 008 (Ghost Rider).cbz
A todos, um Feliz Total (trocadilho com aquele espírito d´antanho que eu comunguei a vocês), e  estendido a todos os outros doutras religiões (e até agnósticos ou ateus), já que em realidade essa data é uma alteração com anuência dos romanos às festividades pagãs que eram realizadas em 25 de dezembro anteriores: refiro-me então, ao espírito fraterno, sendo ou não natalino, como substituto de tal esfuziante data, se esta nada diz a alguns ou muitos de nós! Feliz Total!


Prof. Dr. Gazy Andraus[1], São Vicente, 23 e 24 de dezembro de 2014.




[1] Coordenador e prof. do Curso de Pós-Graduação em Docência no Ensino Superior e criador da disciplina de HQ e Zine no curso de Tecnólogo em Design Gráfico da FIG-UNIMESP - Centro Universitário Metropolitano de São Paulo, Doutor em Ciências da Comunicação pela USP, mestre em Artes pela UNESP, pesquisador do Observatório de HQ da USP e autor independente de HQ fantástico-filosófica.  gazyandraus@gmail.comhttp://tesegazy.blogspot.com/, http://classichqs.blogspot.com.br/

sábado, 2 de março de 2013


Combate no Reino Eterno – Surfista Prateado contra Thor

(Stan Lee – roteiro; John Buscema – arte. Publicações no Brasil:
1-       Heróis da TV, n. 07, Ed. Abril, janeiro de 1980, págs. 03 a 43 (colorida);
2-       Grandes Herois Marvel n. 16,  Publicada Em 1987.
3-       Surfista Prateado – edição histórica, Ed. Mythos, 2003, págs. 123 a 161
Gazy Andraus[1]



Essa é uma das mais bem feitas HQ da chamada era de bronze dos personagens superpoderosos, tanto no roteiro como na arte extremamente bem desenhada. Os traços de John Buscema se mostram refinados e altamente plásticos dando sutileza e leveza ao Surfista Prateado, e detalhando tanto a Terra como o reino de Asgard com seus seres e divindades ao lado de Thor, transparecendo-lhe uma personalidade nobre realmente. Essa magistral história em quadrinhos é uma obra-prima e explora o filão da luta de heróis como chamariz, mas a perspectiva e psicologia dos personagens é minuciosamente explorada, principalmente a do Surfista Prateado, bem como a de Loki, causador e disseminador do confronto. A revista que publicou essa HQ no Brasil foi a “Heróis da TV“ de número 7 que me impactou à época pela beleza da capa na qual estampava-se um espaço sideral (com Asgard bem ao fundo) no qual aparecem os dois heróis principais a lutar. Este também foi o primeiro número que comprei da coleção, influenciado pela arte da capa e miolo. O formatinho ainda não era tão pequeno como foi ficando depois (este número foi o último antes de diminuir mais ainda o formato), e a revista era vistosa e bem grossa contendo 132 páginas além de outras HQ, em que destaco a do Punho de Ferro roteirizada por Len Wein e desenhada por Larry Hama, e outra do personagem Capitão Marvel (antes de sua metamorfose que ocorreria a partir do número 11 dessa estimada revista) roteirizada por Roy Thomas e excelentemente desenhada por Gil Kane e seu estilo único. Aliás, os desenhistas daquele período primavam por estilos pessoais cada qual, o que enriquecia sobremaneira o mercado editorial de histórias em quadrinhos de super-heróis. Infelizmente houve um período nos anos 90 em que as editoras norte-americanas não enxergavam essa riqueza que alimentava o imagético, pasteurizando muitos estilos e forçando desenhistas jovens e imaturos a imitarem um ou outro estilo que na verdade era péssimo e carente de equilíbrio e conhecimentos anatômicos. Por sorte, de anos para cá o rumo tem se aprumado e alguns artistas têm mantido seu estilo pessoal como Phil Gimenez, por exemplo, e outros novos que não tenho seguido, mas que vejo despontarem.


Voltemos à nossa HQ principal que aqui está sendo analisada, e que também foi publicada por mais duas vezes no Brasil, sendo que na terceira em preto e branco (numa edição em que o preto estava mais pra cinza, infelizmente). A HQ cujo título na Heróis da TV era “Combate no Reino Eterno“ foi originalmente publicada em Silver Surfer #4, datada de fevereiro de 1969! Pois bem, a primeira página que abre esta aventura na revista da editora Abril, traz ao trono um deus irado e obcecado lembrando outros vilões das artes, e até do humor, como o grão vizir Iznogud que foi cria de Tabary e roteirizado por Goscinny, justamente trazendo esses recalques e melindres atinentes a tal espírito obsessivo reiterante no rol das mentes perversas (mas que deixam escapar falhas psicológicas muito graves, tal como vemos em novelas e até na vida real – e que foram bem engendradas no roteiro do álbum de 2004  “Loki“ de Robert Rodi e Esad Ribic cuja edição luxuosa de capa dura mostrava um Loki também obcecado mas que finalmente alcança o poder derrubando e aprisionando Thor que quase não aparece no enredo). Essa, umas das mais inteligentes HQ que já li, recebeu atualmente pela Marvel uma versão animada por computador em 4 partes calcada na obra quadrinizada, mantendo a arte original. Loki sempre quis suplantar seu irmão Thor, destronando Odin e tomando o trono à força (tal qual Iznogud obcecado pelo califado, o qual nunca venceu à exceção de uma história que infelizmente não foi publicada no Brasil – mas que deu um fim tragicômico ao vilão que pensou se vangloriar sendo Califa). Também lembro o recente filme Thor, que trouxe à baila algumas reiterações que se encontram nessa versão nórdica adaptada por Stan Lee aos quadrinhos heroísticos.



Pois bem, o intuito do Surfista Prateado na HQ ora estudada, era se livrar do limite invisível imposto a ele por Galactus, que o aprisionou à órbita terrestre como castigo por ter-se rebelado (tendo tido o auxílio do Quarteto Fantástico), já que o gigante espacial queria devorar o planeta Terra. Convivendo com os seres humanos que defendeu do devorador de mundos, foi descobrindo que estes ainda estavam em fase de amadurecimento e por isso muitas vezes mal compreendiam suas ações e não conseguiam viver em paz, como era em seu planeta natal, onde vivia antes como Norrin Radd: Zenla, o planeta daquele que depois veio a se tornar o Surfista Prateado, era bem diferente da Terra, pois lá não havia violência, que ainda grassava em nosso mundo, motivo pelo qual viam o Surfista como um pária, e em vez de perceberem a ajuda que traria, o rechaçavam com violência, lembrando o que foi feito ao cristo cósmico há mais de dois mil anos (acerca dos Super-heróis e a visão espiritualista já publiquei o artigo "A questão espiritual em Thor, Surfista Prateado e Super-Homem“ que pode ser acessado no site Bigorna em  http://www.bigorna.net/index.php?secao=artigos&id=1280807495.Se quiserem se aprimorar, ainda há dois livros que falam dessa ligação dos super-seres norte-americanos ficcionais e sua aproximação ao mítico, e que podem ser encontrados numa busca pela Internet: um é o livro  “Nossos Deuses são super-heróis“ e o outro “Super-heróis, religiosidade e sociedade e cultura“). 



A magistral história "Combate no Reino Eterno" começa no espaço cósmico em que o Surfista buscando sua liberdade, mais uma vez despeja a amargura existencial ao léu sideral, tentando entender o imponderável e o insondável , até que é perturbado por Loki. Mas este lhe chega aos poucos, após sondar sua mente e descobrir seus mais intensos desejos e o que até então havia feito. Esses detalhes fazem a mente maquiavélica de Loki lucubrar um plano, o qual seria tentar levar o Surfista de encontro a seu irmão numa batalha que poderia ser ganha pelo ex-arauto de Galactus se fosse obscuramente ajudado por Loki, sem que aquele o notasse!



Cenas magistralmente desenhadas por John Buscema passam a emoção a que se encontravam os personagens, como no último quadrinho da página 4 da HQ, quando o Surfista aparece desenhado arremetendo a si mesmo contra  a barreira invisível imposta a ele por Galactus. A expressão de desespero em obter a passagem é transmitida pelo olhar que Buscema faz ao lânguido herói, enquanto a aura de Loki aparece abaixo a observar o intento...



Como se verifica na arte, o desenhista priorizou a forma atlética sem exagero nos corpos dos personagens, e abusou de variados ângulos, como na página seguinte em que o Surfista é rebatido pela barreira e se desconecta da prancha. Nas páginas 10 e 11 da HQ, o Surfista reflete ao lado de animais na floresta, quando Loki finalmente se apresenta. A seguir sucede-se uma luta entre ambos, obviamente provocada por Loki para testar seu oponente. Por fim, o vilão dissimula que encontrou quem procurava para por fim aos planos diabólicos de seu irmão Thor. Como o Surfista não conhecia nenhum deles, é facilmente ludibriado por uma visão arranjada por Loki, na qual se visualiza Thor como um conquistador que quer destronar seu próprio pai, Odin, com um exército pessoal de traidores. Assim, em retribuição ao auxílio, Loki promete ao Surfista livrá-lo da maldição de Galactus rompendo a barreira e permitindo-lhe que volte a seu planeta, uma vez realizada a missão. É desse modo que o Surfista Prateado adentra sozinho Asgard com a permissão de Heimdall, guardião da ponte do arco-iris (Bifrost), e é convidado a se instalar à mesa no almoço ao lado de Thor, que se recusa a lutar com o arauto do espaço, sem antes ouvir suas queixas durante a refeição grupal. A partir desse instante o Surfista começa a estranhar tudo isso, e antes que lhe ocorram mais considerações, a essência maléfica e invisível de Loki faz com que um dos guerreiros asgardianos atire uma espada diretamente contra o Surfista, que então imagina ter sido enganado por Thor e começa a lutar com todos ali presentes. Enquanto isso, Odin é avisado da batalha e solicitado a intervir, mas permanece inalterado, numa das passagens mais interessantes da história. Eis uma de suas falas:

 
“...ao estranho não cabe culpa alguma! São forças alheias à sua vontade que o impelem a atacar! Que a peleja continue! Dano algum pode provir de um combate, quando os corações são puros!”






Apesar de tudo parecer pueril na atualidade, sinto uma beleza extraordinária nessas histórias, o que correspondem às lendas de vários períodos da história humana. O filme El Cid trouxe mensagens belíssimas do que norteou a lenda que girou em torno do campeador espanhol que conseguiu expulsar parte dos mouros da Espanha e aglutinar novamente o reino que se fragmentava com reis brigando entre si e perdendo terreno aos árabes. Segundo a lenda (baseada em fatos que ocorreram), seu coração e coragem eram puros, e não tinha ganância, mas um senso de equidade inolvidável. Em uma das passagens que se conta desse mito, ele evitou o exílio de um dos filhos do rei, quando um deles ordenou a prisão de seu próprio irmão, para ficar com o trono, após a morte de seu pai. Mas El Cid não pendeu para nenhum dos lados, apenas fazia o que  sua consciência ditava: não podia auxiliar um dos príncipes em detrimento ao outro. Só ajudava quando via que um deles agia erroneamente contra o outro (pois há que se lembrar: Cid foi o campeador do Rei, o que quer dizer que era seu braço direito e protetor, portanto, uma vez morto o rei, seu campeador deveria proteger os príncipes). Em seguida, El Cid foi exilado porque foi o único do reino que ousou questionar um dos irmãos que acabou no trono, acerca de sua culpa (ou não) pela morte de seu outro irmão, apunhalado nas costas numa estranha emboscada. Tempos depois, Cid fez seu próprio exército e continuando a luta contra os mouros, recusou-se a se consagrar rei por conta própria, ainda que estimulado pelos seus companheiros, após tomar de volta com eles, um dos castelos que estavam sob a custódia dos mouros. E ainda fez um de seus cavaleiros levar a coroa reconquistada ao rei (que o havia exilado), para que entendesse que ele queria unificar a Espanha, e não guardava rancor desse jovem mas impetuoso monarca. Ao final, Cid, pouco antes de morrer devido a uma flecha recebida noutra posterior batalha, recebe a visita do rei, que arrependido de suas ações vai ao seu auxílio, lutar contra os mouros. Esta lenda (que faz parte de uma realidade ocorrida na Espanha moura), mostra que o ser humano que resguarda seus ideários, quão nobres sejam, e que se mantém fiel a eles, apesar de obstáculos, leva uma vida mais digna e justa, e de certa forma, consegue desenvolver suas tarefas ainda que com oposição (que não se mostra, então com esse exemplo, eterna, visto que o rei que odiava Cid resonsiderou e se arrependeu, quase que como um ensinamento dado por Cid – que realmente o ensinava a reinar: noutra das passagens anteriores, o então príncipe pede a Cid que mate um dos traidores numa emboscada que fizeram-lhes, quando o herói campeador interrompe e grita com o príncipe, dizendo que qualquer um pode tirar uma vida, mas só um rei verdadeiro pode mantê-la!). Mesmo que não faça muito sentido aos jovens da atualidade, entra em ação aqui a questão da justiça e das normas e regras cavaleirescas e nobres, que todo ser equânime possuía como parte de seu desenvolvimento (quem quiser, busque o livro ou o filme em DVD, pois é bem interessante).
De certa maneira, é da mesma forma que essa história em quadrinhos do Surfista Prateado contra Thor traz à baila (com a fala de Odin), a questão da pureza e da nobreza das intenções, apesar dos obstáculos que se interpõem no caminho dos heróicos e destemidos (mas justos como Cid) personagens...e que algo maior pode se suceder quando há mais em jogo.



Na referida batalha épica dos quadrinhos, quando finalmente o Surfista Prateado menciona Loki durante o furor da luta, Thor, ao ouvir o nome, questiona-o sobre o que sabe de seu irmão. A partir desse momento, a influência de Loki começa a ser debelada, e o vilão, ainda invisível, faz desaparecer o Surfista do reino asgardiano reportando-o novamente à área próxima do planeta Terra, no mesmo ponto onde se encontrava antes, pois Loki temia que seu plano fosse descoberto pelos asgardianos, que o puniriam. Nisso, Thor estranhando o sumiço, todavia, sente que a aura daquele ser reluzente e sua coragem impregnara o reino de uma forma distinta transformando tudo, após a luta. Enquanto isso, no último quadrinho da HQ, o Surfista novamente se autocomisera por se encontrar novamente preso à famigerada barreira, tendo perdido a esperança que havia sido prometida por Loki, por quem ele percebera ter sido maleficamente enganado e manipulado. Porém, em sua última fala, mantém a esperança de que um dia “os grilhões se partirão, e, por fim, o Surfista Prateado conhecerá outra vez a liberdade“.


Além dessa mensagem positiva do roteirista Stan lee, há de se salientar a maneira mais “culta“ de se narrar a história também nos balões de fala. As duas últimas páginas exemplificam bem isso quando Balder fala: “Se Thor estiver ferido, que o agressor se acautele“. Enquanto que na página seguinte Thor brada: “Protege-te Milady! Ele ataca novamente!“




Como se vê, esta HQ do Surfista Prateado foi produzida com esmero, sendo uma HQ de arte bela com um roteiro intrigante e reflexivo!

Ora, eu tinha 13 anos quando li tal história em quadrinhos. Somando aos ideários e mensagens de heroísmo, justeza e esperança que eu captava (e gostava), havia também uma escrita que (apesar de a tradução ser minimizada devido ao “formatinho“) me fazia lidar bem melhor com uma leitura mais correta e de fala mais complexa, incluindo palavras de outras línguas (“Milady“) e menos usadas (assim como verbos e suas variações como “se acautele“).
O que quero aqui mostrar é que houve HQs, mesmo que de Super-Heróis, de uma beleza ímpar! Essa aqui, nota-se claramente, teve mais esmero e cuidado em sua elaboração, tanto no roteiro como na arte perfeita, plástica e exuberante de Buscema (já falecido). Naquela época o gibi do Surfista Prateado tinha mais páginas que o usual, e não era mensal, motivo pelo qual os artistas tinham mais tempo para elaborar as histórias, com mais refinamento na arte. Pois é sabido que devido à contingência de lançar revistas mensais de personagens, a qualidade do desenho dos quadrinhos teve que ser simplificada, conforme salienta e questiona, entre outras razões, o texto “O desenho inferior das histórias em quadrinhos“, de Edgard Guimarães e publicado como encarte em seu último fanzine “QI # 119“. Quem conhece e aprecia desenhos, saberá do que falo, ao passar seu olhar pelos quadrinhos e pela arte do desenhista, com o refinamento dos ângulos que Buscema colocou nos personagens e a musculatura e perspectiva – precisa e plástica ao mesmo tempo. 
Como um exemplo final da qualidade de tais traços, reparem na plasticidade artística no quadrinho de uma das páginas iniciais em que Loki é visto do alto (câmera alta) e de costas sobre um prédio (vide imagem)...


Gazy Andraus, São vicente-SP, entre 2012 e março de 2013 (Imagens graças ao Aquiles grego: http://4sharedtrend.com/f/4475274/737_surfista_prateado_v1_005_gibihq_aquiles_grego_08jul09_br.html)



[1]Coordenador do Curso de pós em Docência no Ensino Superior da FIG-UNIMESP, Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Abertura


Como leitor de HQ de super-herói na adolescência, vi que havia muitas HQ excelentes e pouco referenciadas na atualidade. Muitas passaram despercebidas.
Esse blog é para resgatar algumas delas, analisando um pouco a qualidade nos roteiros e arte, mas em especial as mensagens, como as do Surfista Prateado, em que o humanismo era latente, ou outras que tinham tons ecológicos (me lembro de uma história que saiu no antigo “Heróis da TV” da Editora Abril em que o Motoqueiro Fantasma salvava uns golfinhos de um homem revoltoso que os odiava). Portanto, havia HQ em que os plots principais não eram essa briga eterna entre heróis e universo, como na atualidade. Noutra HQ, o Homem-Aranha visita um menino que é seu fã, mas que está quase à beira da morte no hospital, em estado terminal de seu câncer. E ele morre, ao fim. Assim como noutra aventura o mesmo cabeça de teia auxilia um agrupamento de bombeiros a conter um prédio em chamas...e um dos bombeiros morre, deixando uma reflexão maior na mente do heróis (e para o leitor) de que os heróis reais eram mesmo aqueles que lutavam contra o fogo, os bombeiros! Havia simplicidade em muitas HQ, mas os tons no conteúdo, de mensagens salutares (a meu ver) apareciam em algumas daquelas HQ.
Porém, advirto que aqui não haverá apenas textos sobre tal estilo (super-herói) mas também de outros que possivelmente me deixaram marcas, como exemplo, o álbum “O Homem é bom?” de Moebius, entre outros como HQ cósmicas do autor também francês Caza etc.
Assim, resolvi iniciar minha série de escritos acerca dessas histórias que me marcaram iniciando aqui com uma BD do motoqueiro Fantasma, na qual que ele tem um duelo com a Morte!

Abraço e boa leitura.
Gazy Andraus, São Vicente-SP, 01/03/2013